domingo, fevereiro 17, 2013

O inefável


Ele tinha um charme displicente, não era bonito. Não, espera... Ele era bonito, mas não de um jeito convencional. Talvez não bonito precisamente, bem, convenhamos, beleza é um conceito muito abstrato, difícil de definir... Vamos deixar isso de lado! Mas a boca, ahhh a boca era bonita, limites precisos, labios grossos, masculinos, o cabelo também era bonito, é isso... Ele era bonito em partes, o conjunto era meio caótico, underground, mas quando eu o olhava em módulos ele mandava bem, mas enfim, um parágrafo inteiro falando de beleza é uma perda de tempo, porque no fim das contas isso acaba perdendo a relevância, especilmente quando o assunto é o Zi, ele não é um cara como os outros, ele é livre... Nas idéias, nas ações, nas palavras, nas crenças. Isso primeiro assusta, depois enfeitiça e por fim vicia. Ele repele preconceitos e abraça diferenças, ele ousa, ele usa metáforas com maestria. Adoro gente metafórica, pessoas literais cansam um pouco, ele nunca é enfadonho e desconhece o lugar comum, não é o tipo popular, nem tenta ser, ele é a palavra não dita, as entrelinhas, a pausa depois do ponto, o fôlego ao sair do mar, ele transcende...
Nós fomos um binômio estranho, antagônicos e ao mesmo tempo tão afins! Isso dá choque... É que na real, a gente era um casal improvável, impreciso, sem contornos ou fronteiras... A minha história com o ele foi breve, como é breve tudo que é belo. Mas sempre trago ele comigo junto com um sorriso e uma saudade-brisa, dessas que ao invés de trazer tristeza, acalma.
Podia ter sido um lance legal, podia ter sido O LANCE, podíamos ter sido um casal, mas não fomos, fomos ... sei lá o que fomos... Um encontro, uma palpitação, uma urgência, uma vontade, uma crise, uma despedida. Fomos um curta-metragem, tá bem que de ótima qualidade técnica e roteiro incrível, mas quando a gente precisa de mais... Sobem os créditos finais.
De todo o jeito ele me mudou, mudou meu ponto de vista, sou grata a ele por ter conseguido o que quase ninguém conseguiu, me deixar olhar a mim mesma pelos seus olhos sonhadores, de um modo que eu jamais veria se ele não tivesse me mostrado, ele tinha essa capacidade de captar ângulos da vida que para qualquer outro passaria despercebido.
Eu, com minha insegurança de adolescência tardia, desconfiei dessa originalidade pomposa, de sua peculiaridade meio selvagem e de seu discurso libertário, deconfiei muito dessa fome que ele tinha de vida e de sua voracidade diante do novo, tive medo de me perder na imensidão que ele era.
“O medo te protege” ele dizia, mas também dizia que logo não seria mais necessário sentir medo e então, nesse momento, nos encontraríamos. O momento não chegou, eu preferi o medo e a calma dos meus dias mornos, bem verdade que não cheguei a me ferir em sua chama, mas seu calor foi suficiente para me deixar com um frio que não passa desde que me afastei dele.
Depois que a gente conhece alguém assim, vc simplesmente não volta a ser o que era... E não tem paralelo, não tem semelhança, não tem comparação feliz que me faça acreditar que existirá alguém igual novamente. Ele era o inefável!

 

sábado, setembro 22, 2012

Balzacas...

Honoré de Balzac
O bom de ser balzaca?

Sei lá parece que a gente vai se conhecendo melhor, se sente mais a vontade com o que se é, aprendemos a rir mais, nos importar menos, valorizamos mais as vitórias e aprendemos a rir das derrotas.
Mas de tudo, de tudão mesmo, o que eu mais valorizo daqui do alto dos 34 é uma qualidade até meio escrota, que nem sei se dá para colocar na prateleira das qualidades, é mais um ponto de vista... É aquela manha que a gente pega de rir de si mesmo, tirando o peso das coisas, porque nessa altura da sua vida, já caiu aquela ficha, do tamanho de um bueiro, de que as coisas podem dar certo, mas muitas vezes dão errado e a gente se rala, tropeça, se lasca, engole sapo, chora no travesseiro, imagina se seria mais rápido e menos sofrido se jogar do trilho do metrô ou tomar um coquetel de ansiolítico, se quebra, se dói e ainda assim aprende a rir disso tudo, até das esperanças frustradas e ilusões perdidas. Porque nesse ponto da vida a gente já quebrou a cara tantas vezes, que a gente percebe que esta é só mais uma, nada demais, daí vc pede uma dose de José Cuervo com limão e tudo alivia.
Aos 18 vc é linda, fresca, rígida, tem uma bunda incrível mas perde tanto tempo precioso sofrendo pelo carinha que não liga, pelo amor perdido como se fosse único/último/especial. Aos 18 a gente planeja demais, sonha demais e executa bem pouco. Aos 18 temos pouquíssima experiência com fracassos e eles parecem terríveis demais. A gente sonha com uma independência utópica sem saber exatamente o preço dela. Aos 18 a gente se preocupa demasiadamente com as opiniões alheias (que grande perda de tempo!)
Aos 30 e bolinhas nós já desapegamos dos planos inflexíveis, dos amores perfeitos, da auto-censura militar, dos dogmas e das regras impostas, aprendemos a ler pessoas e a julgar menos e o melhor é que ainda existe muito, muito, muito amor para recomeçar!

terça-feira, setembro 18, 2012

Conversa de banheiro

- Chega nele! Ela diz enquanto faz ginástica facial para retocar o rímel.
- Que? Comeu cocô? Não sou dessas, vc sabe. Sou do tipo que espera...
- Babaca!
- Babaca não, conservadora!
- Trouxa!
- Tradicional!
- Vc tem mais de 30, vai esperar até sua gengiva ficar exposta e ter que lavar seus dentes fora da boca?
- Vc é tão assertiva que chega a asfixiar...
- Sou nada, vc que é tão lesma-lesa que me faz parecer um oficial da SS!
- Mengele!
Ela ri da comparação faz uma careta e volta à retórica...
- Vc sabe que te amo, mas poha, até quando vc vai fazer papel de Suiça na vida?! Vc precisa se posicionar, opinar e cagar baldes para a opinião alheia!
- Note que isso não é uma escolha, você não acorda um dia e diz - Hoje vou fazer o que me der na telha e exercer o meu direito genuíno de cagar baldes! Não é assim droga!
Deve ser um gene, um cromossomo sei lá... Vc é um vórtice de auto-confiança, e eu... Bom eu sou esse poço de insegurança, assim é a vida. Para de me encher!
- Tudo, tudo, tudo, TUDO na vida é escolha, quantas vezes mais eu preciso repetir para que essa verdade universal entre na sua corrente sanguínea!? Vc é tão comprometida com sua autocomiseração que me dá vontade de... de... sei lá... Cuspir em você!
- Poutz, auto-ajuda de banca de jornal de novo, lá vem você... Pq vc faz tanta questão de me convencer que estou errada? É só o meu jeito, isso também me define droga, é parte do que eu sou, é o que me faz ser eu! Pontos de vistas minha cara, nada mais, nem certo, nem errado...
- Peguei pesado?
Ela muda o tom e tira um mecha de cabelo caída sobre meu rosto.
- Não, tudo bem. Já conheço esse teu jeitinho amoroso de fazendeira russa!
- Sabe o que é? É que eu te adoro tanto e te admiro e sei lá... Queria que as pessoas te vissem pelos meus olhos, vc é tão única, tão especial!
- Solidão não é doença! Que mania é essa que as pessoas têm de achar que só estão completas quando tem alguém? Quando foi que ficamos tão emocionalmente dependentes? Eu sei que você não acredita, mas ó... Eu tô bem pacas, a vida corre em paz, tá confortável aqui onde eu tô! De verdade!
- Sabe, as vezes eu queria morar dentro de vc só um pouquinho para perceber o mundo do teu jeito... Vc é um paradoxo ambulante! Num momento te sinto tão ingênua e desamparada e em outro tão desprendida e auto-suficiente...É intencional?!
- Não, não... É patológico mesmo! Tem casos de esquizofrênia na minha família!
Ela ri e retruca carinhosamente:
- Teu cú!

segunda-feira, março 12, 2012

L'amour est plus froid que la mort

Te guardei em um lugar especial, mas está guardado.
Guardado de mim e desse mundo estranho que não soube entender a gente, guardado das amarguras e tristezas.
Sempre penso no quanto fiz para mudar, mudar a você para se adequar a mim, mudar a mim para me adequar a você...Hoje vejo que já não cabíamos em nós e cada tentativa nos fazia dar mais um passo oposto, não havia mais caminhos para nós lado a lado.
Não sei em que momento me apaixonei por você, ou pela idéia de você, assim como não consigo decifrar o momento em que partimos, em que nos deixamos.
Olhando para trás, já entendo coisas que não entendia antes, mas ainda assim não consigo identificar o nascimento das alegrias, ou das tristezas, tudo se mistura, se homogeniza nesse mosaico de memória, um caleidoscópio de tantas sensações paradoxais.
Transformamo-nos em um degradé suave, ainda assim bonito, ainda assim genuíno, ainda assim verdadeiro.
Tá muito bem, algumas coisas simplesmente não dão certo, ou dão tão certo que se consomem rápido demais, não importam mais os motivos, não há mais culpa, restou a paz e a quietude.
Te peço que me guarde também com certo cuidado e gentileza, se for possível, para que possamos repousar felizes naquilo que um dia fomos.
Desculpe-me por deixá-lo ir, quiçá por fazê-lo ir, é que foi doloroso sentir-me só estando a dois, estava pesado, estava triste e nós podíamos ser tudo, menos tristes, não servia em nós a tristeza.
Ficou o silêncio de promessas não ditas e o estrondo de ofensas vociferadas, dois lados da mesma moeda, o sentir.
Talvez ainda exista o encontro, talvez exista o depois, talvez nunca, talvez...
Te dou a serenidade dos sorrisos que repousam em nossas lembranças, te dou este epitáfio do idílio romântico que um dia foi nosso, te dou meu silêncio e uma prece, para que encontres novos passos firmes em estradas suaves.

quarta-feira, março 07, 2012

Mulheres podem passar o dia com 60 calorias diárias, e se afogar em leite condensado quando algo vai mal, são melodramáticas, ansiosas, frenéticas.
Mulheres quase sempre perdem a medida do amor, amam demais, as vezes odeiam demais, amam errado, amam a todos antes de si mesmas.
Mulheres cuidam, antes mesmo de aprender a falar e seguem cuidando o resto da vida...
Mulheres se perdem nas contas do cartão de crédito, no cheque especial mas não perdem a pose!
Mulheres têem hormônios demais, são descontroladas, bipolares, quase sempre a beira de um ataque de nervos.
Mulheres têem um savoir vivre encantador, molejo e borogodó nas mais adversas situações!
Mulheres querem colo, atenção e carinho mesmo quando se fazem de forte.
Mulheres são paradoxos encantadores, são labirintos mágicos!
Mulheres falam demais, com a boca, com os olhos, com as mãos, com o corpo todo!
Mulheres são delicadas, mas sabem guerrear, são suaves, mas sabem se fazer ouvir, são meninas até bem tarde apesar de se tornarem mulheres tão cedo!
Mulheres acolhem, protegem, são mães, amigas, são multitarefas!

Me orgulho um bom bocado dos meus cromossomos duplo x, sou tudo isso aí e um tantão mais!

Feliz dia mulheril!

domingo, março 04, 2012

Pequeno tratado sobre o tabagismo.

Os tabagistas são os novos maconheiros. Li isso num quadrinho, achei perfeito, não existe máxima mais verdadeira! Fumantes estão cada vez mais marginalizados, execrados, hostilizados.
Sou fumante desde os 19, e comecei a fumar por causa de Sharon Stone em "Instinto Selvagem", achava sexy, meio underground, meio glamuroso, eu sei, eu sei...Triste, mas verdade, comecei a fumar e a usar unhas postiças, queria aquela vibe bitch, mas nunca escondi picador de gelo embaixo do lençol, juro! Embora, confesso, que algumas vezes um picadorzinho teria sido providencial (Ai, como eu tô homicida!!!) kkkk
Brincadeiras a parte, sei que minha retórica vai soar totalmente "políticamente incorreta", mas sempre achei que um viciozinho salva de vez em quando, passei 9 meses sem fumar por conta da gravidez, e quase enlouqueci, pedia para os fumantes me darem "passes" de nicotina e sempre que cruzava com um dizia: Dá uma baforada em mim!
Saí da maternidade como? 20 kg acima do peso, inchada, cheia de pontos, e louca por um cigarro... Virei pro meu ex-marido, ainda no estacionamento da maternidade, e disse me dá um cigarro! Mas vc vai amamentar, ele argumentou, eu olhei para ele com fúria e disse: Se vc não me der um cigarro agora, eu vou apertar as suas bolas até nascerem peitinhos em vc para que vc mesmo amamente! Ele não titubeou e foi a melhor tragada da minha existência, sério!
Claro que não sou pró-cigarro, mas magoa vc estar caminhando na rua, feliz com seu veneninho lícito e a senhorinha que vem em sua direção olha para vc com desprezo e abana o ar em reprovação ao seu cigarro, tabagistas tem sentimentos, atrás deste cigarro também bate um coração, ainda que seja um coração com mais de 4.700 substâncias tóxicas... Pô, pega leve né?! 
E aquelas fotinhos atrás do maço? Gente, põe um pônei maldito, a foto do Reginaldo Rossi, um versinho mórbido de Augusto dos Anjos...Sei lá, sejamos mais criativos! Pé gangrenado é puxado pacas, cheguei a fazer um joguinho da memória recortando as figurinhas, mas não implacou, me chamaram de louca! Louca, eu, magina...
Mas os tempos são bem outros, quando comecei a fumar, ainda se fumava em shoppings, bancos, supermercados, restaurantes, Drauzio Varella ainda tinha cabelo e se ocupava dos presidiários do Carandiru, nem sonhava em fazer campanha anti-tabagista no Fantástico...
Fato é que não há mais espaço para vícios analógicos, só os digitais são permitidos, são tempos difíceis para os viciados do século passado, é por isso que vou parar de fumar, mas não agora, porque vai que o mundo acaba mesmo em dezembro, e eu passei o ano inteiro com vontade, nossa, já pensou: Parem com as erupções solares porque eu quero um cigarrooooo!!! Pegadinha né?! Então só me perturbem depois de 21.12.2012, pode to be!?

sexta-feira, março 02, 2012

A vida que leva a gente...

A vida dá uns olés lindos na gente, por isso desisti de fazer planos, você planeja, planeja e água. Melhor é viver a deriva, curtindo as novas experiências e deixando o caminho se fazer ao caminhar, expectativa atrapalha, angustia e aprisiona.
Só sei o que sinto, o que é real, cansei de me corroer pelo que não fiz, pelo que não tenho, pelo que não sou...Não importa o que se faça, a vida continua sendo essa cartolinha de mágico, e segue alheia a nossas vontades num fluxo constante, segue o fluxo com fé!
Só acredito no melhor, sempre acredito, mas não espero, não é a toa que deram esse nome significativo ao presente, é a única coisa real, o resto...Ah o resto é Matrix! There is no spoon, saca?
Tirei um peso giga das costas quando parei com o imediatismo atordoante, quando deixei de acreditar nos outros para acreditar em mim, quando resolvi não dar audiência para o que os outros pensam sobre como vivo a minha vida, quando parei de esperar e comecei a apenas receber, é tão superiormente gratificante!
E sigo desvendando, descobrindo, vou como um bandeirante, abrindo caminhos no desconhecido. Os abacaxis aparecem, sempre aparecem, faço Piña Colada deles.
Nada nunca veio muito fácil na minha vida, plagiando Clarice, nunca recebi os seixos polidos, sempre rolei pedras, e sigo rolando, mas não tenho do que me queixar, cheguei inteira, embora tenha estado aos pedaços aqui e ali e quem não tem seus momentos quebra-cabeça não é mesmo? Isso é parte da aventura, juntar os pedaços e fazer sentido de novo e nessa constante reconstrução poder se reinventar e se conhecer mais, ir se amando um tantinho mais também, a cada entulho que retiramos do caminho, a cada ferida cicatrizada, a cada dor que se cala.
Tenho feito um bom trabalho até aqui!